Sempre tento manter uma lista mental dos 5 livros que eu teria na minha cela, numa cadeia ou manicômio. Essa lista tem vários motivos. Um deles é que nem na cela, nem no manicômio, tem muito que fazer para passar o tempo e, definitivamente, escrever no fotolog ou acompanhar as minhas séries de TV por assinatura não seriam uma opção válida. A outra é que as pessoas normalmente falam em coisas - livros, filmes, pessoas, que alguém levaria para uma ilha deserta. Mas vamos e venhamos: na atual sociedade, e na situação caótica em que andam as coisas, a probabilidade de alguém ir parar na cadeia ou no manicômio é pelo menos umas mil vezes maior do que a de ir parar numa ilha deserta. Depois, numa ilha deserta, eu teria tanto trabalho - quem já leu a história de Robinson Crusoé, já viu o filme Náufrago ou acompanha Lost sabe a quantidade de coisas que se tem para fazer numa ilha - que não ia ter mesmo tempo para ler. Bem, agora que está explicado o motivo das minhas listas, posso ir ao assunto principal.
Geralmente, tento ter em mente os 5 livros que seriam meus companheiros durante algum eventual afastamento forçado da sociedade moderna e de seus luxos. Confesso que até hoje eu só tinha dois: Crepúsculo dos Ídolos e o Retrato de Dorian Gray. Gosto muito de ler e a maioria dos livros me agradam, mas veja bem, para ser meu livro companheiro de todas as horas, não basta ser um bom livro, tem que ser um grande livro. É mais ou menos a diferença entre escolher com quem você vai sair no sábado à noite e escolher com quem você vai se casar (eu já escolhi!), entende? O livro do manicômio é como o seu cônjuge. Não basta ser bom, tem que ser perfeito e você sabe que conviverá com ele por muito tempo antes de enjoar. E, até agora, os dois grandes livros da minha vida eram os dois títulos citados acima.
E eis que me deparo com uma edição de bolso de um livro bem fininho, com título de conto de revista feminina: "O Diário Roubado", de Regine Deforges. Resolvi ler o livro no ônibus, para ter o que fazer indo para algum lugar. E, tão arrebatadora e inesperadamente quanto qualquer outra paixão, o livro me pegou de jeito.
A história é a de uma adolescente de 15 anos, que mora numa cidadezinha no interior da França durante a décade de 50. Ela namora uma outra menina, mas se diverte ocasionalmente com um rapaz. E, claro, chuta o rapaz para ficar com a garota de quem ela realmente gosta. Como vingança, seu diário é roubado e toda a sua vida sexual fica exposta para a cidadela, que pede sem piedade a cabeça da menina. A confusão está armada. O ladrão do diário promete devolver o diário à menina se ela jurar nunca mais ver sua namorada e virar uma pessoa "decente". E o principal da trama é o inferno pelo qual essa menina passa. Por que, nem por um momento, ela pensa em aceitar a chantagem. "O diário roubado" é um livro sobre a resistência, a dificuldade em enfrentar o mundo - literalmente - em troca do direito se ser, de existir, de se desenvolver plenamente. Enfim, de ser fiel a si mesmo. E é isso que o torna mágico. Léone, a personagem principal, não é boazinha (até porque uma menina boazinha normalmente desiste fácil. Para resistir, você tem que ser um pouquinho perverso na maior parte das vezes. Resistir normalmente envolve também se magoar e magoar muitas pessoas que lhe são amigas queridas, não é mesmo?). Léone não se importa em quantos sairão feridos da sua guerra. Ela se mantém firme, mesmo estando cada vez mais acuada. E resiste, resiste... Enfim, um livro fantástico sobre a condição humana, a coragem diante do preconceito e a maldade das pessoas. Acho que todo mundo deveria dar pelo menos uma olhadinha nessa obra.
E, como estamos falando de meninas que gostam de meninas, nenhuma foto seria mais apropriada do que as que eu coloquei aí em cima. Romantismo puro... é de Tamara de Lempicka. Amo suas telas, são todas muito românticas, o nu é realmente artístico. Fico me perguntando quando as revistas masculinas deixaram de ser tão bonitinhas para se tornarem pornográficas. Não que uma coisa seja melhor ou pior do que a outra, mas é definitivamente uma mudança radical demais para tão pouco tempo, não?

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